Vitória Silva Bicego

Ao caminhar pelas ruas de São Félix (BA) em busca do ambiente onde iria iniciar a
captação dos sons, pude perceber o quanto vivemos no automático e, na correria do
dia a dia, perdemos a maioria das experiências sonoras à nossa volta. São Félix,
juntamente à cidade de Cachoeira, possui uma vista privilegiada, a do Rio
Paraguaçu, e a orla das cidades parece nos transportar para um outro tempo, onde
o relógio corre mais devagar. Ao me atentar ao som das águas encontrando as
bordas da terra, percebi que o mundo humano, em uma quarta-feira pela tarde,
reside longe. Caso voltasse à orla em um domingo pela manhã, a gravação com
certeza seria outra. Identifico nisso uma beleza sutil, como uma forma de contar
uma narrativa sem palavras e, de certa forma, a sonoridade dentro do mundo
audiovisual segue nessa mesma linha.
Uma e meia da tarde, quarta-feira, sol brilhando e o mundo acontecendo: não há
como gravar sons 100% estéreis, como se tivesse levado o Rio Paraguaçu para
dentro de um estúdio. Justamente por isso, não me incomodei em excesso com
conversas paralelas, ou sons característicos de labuta, como máquinas ao fundo-
estranho seria se os mesmos não aparecessem. Mesmo assim, sentei-me mais
distante das pessoas e aguardei o momento em que o vento desse uma trégua,
apesar de ser o mesmo quem provocasse o som da água sendo empurrada em
direção à terra. Enquanto gravava, de fone, senti uma paz atravessando a semana,
como um momento de respiro, a prova viva de que os sons falam, mesmo sem
utilizarem uma palavra sequer.
Caminhando em direção a uma praça, onde fica o CRAS, na tentativa de captar
alguns pássaros cantando em cima das árvores, percebi que uma escola próxima
emanava um som em eco, como uma música. Escutar as crianças cantando mudou
completamente o estado do meu áudio. Intitulei-o como ‘’quem canta os males
espanta’’, por perceber que era uma escolinha dedicada à fé, chamada ‘’’Escola
Menino Jesus’’, mas também por instantaneamente sentir uma paz, sorrindo ao
prestar atenção nas vozes das crianças aprendendo algo novo.
Quanto à minha experiência geral, imaginei que captação de som seria mais
complicada, por envolver vários pormenores que precisam de nossa atenção, mas
me surpreendi com a potência que um telefone pode ter- já que utilizei o aplicativo
do Zoom, no próprio celular- e que não se faz necessário equipamentos enormes
para começar a aprender a captar. A experiência me incentivou a desenvolver
outros projetos individuais de escuta.

por Vitória Silva Bicego