Desde o início de minha graduação no curso de Cinema (em 2019) que eu sempre realizei o percurso de ir e voltar de Santo Amaro para Cachoeira, às vezes de ônibus, às vezes dirigindo, e ao longo de todos os esses anos eu sempre fiz esse percurso em linha reta, sem paradas, até a proposta do exercício de captação de som para a disciplina, em que deveríamos escolher um bairro de Cachoeira para fazer as gravações.
Escolhi a Zona Rural justamente por ser meio do meu caminho de carro para Cachoeira, e pela primeira vez saí da pista para adentrar em pequenas estradas de terra que dão para os distritos anteriores a Cachoeira. Isso por si só já valeu o exercício como uma experiência extraclasse e também como uma atividade pessoal.
Sobre a captação em si, eu escolhi adentrar mais longe pelos distritos de modo a me afastar da pista principal, pois não queria gravar o som dos carros passando. Pautado nisso, devo admitir que criei expectativas e de certa maneira desenhei o som em minha cabeça antes mesmo de chegar ao local, que eu não conhecia e estava indo aleatoriamente. Tinha em mente que queria uma ambiência de silêncios, um som de “nada”, talvez apenas captar a natureza, justamente porque queria me distanciar dos sons que eu já conheço da cidade e dos bairros de cachoeira. Posso dizer que no final, com relação ao áudio gravado, houve um pouco de frustração.
Devido ao tempo apertado e pela minha logística de não morar em cachoeira e só ter pego uma disciplina nesse semestre (a última que falta para eu me formar, já tendo defendido o TCC), não pude reservar um gravador para o exercício e tive que usar o celular, através do aplicativo HandRecorder, da Zoom, que não tem a mesma sensibilidade de um gravador de verdade, principalmente para captação de ambiências.
Antes de dar REC no aplicativo, eu parei por um tempo para escutar tudo que tinha ao redor e ia me ajustando um pouco pelo espaço. No primeiro ponto que parei para gravar, me aproximei de umas árvores que chacoalham com o vento, achei um som muito gostoso, e para além disso, eram 14:00hrs com sensação térmica de 38° junto a um sol de torrar a pele. Ficar próximo as árvores me trouxe sombra e um pouco de brisa, era juntar o útil ao agradável. Fiquei imóvel e em silêncio por um tempo e então comecei a gravação, conseguia escutar passáros bem distante, o vento soprando nas árvores, as folhas balançando, e para mim, essa ambiência de certa forma representava uma espécie de “silêncio” que eu queria captar. No aplicativo do celular o monitoramento não indicava em nenhum momento que o som estourou, mesmo com o vento soprando muito próximo. A marcação quase não chegava em -18. Isso começou a me preocupar, por achar que o aplicativo poderia estar com algum problema e na verdade o som do vento ter estourado e prejudicado a gravação, por precaução me afastei das árvores e fui torrar debaixo do sol
para ter uma gravação com mais segurança, sem o som do vento.
Tudo pareceu correr bem, até quando fui checar os arquivos em casa e toda a vivacidade de detalhes que eu consegui escutar não foi captado pelo celular, resultando em um som muito tímido, com pouca informação, e o vento de fato não estourou. Apesar disso, ainda era uma gravação de ambiência que acredito ter utilidade em algumas situações.
No segundo dia que dediquei para as gravações, fui para um outro local um pouco mais afastado, uma área com casas abandonadas ou ainda em construção. Dessa vez queria captar mais sons de pássaros e de natureza, por isso fui em um horário um pouco mais cedo. No local onde parei para gravar havia uma vaca pastando, queria muito captar esse som, porém por já conhecer como o aplicativo do celular funcionava, sabia que isso não seria possível (e realmente não foi). O resultado dessa gravação foi ainda mais tímida e
silenciosa que as antigas, apesar de mais uma vez eu ter escutado bem mais coisas no silêncio ao redor, como o som de água que escorria lentamente pelo chão de um cano quebrado.
Essa experiência de escuta é algo que eu certamente quero repetir. Um detalhe aqui é que por eu usar um aplicativo para as gravações, meu celular se tornou automaticamente inutilizável pelo tempo em que eu estava gravando, assim minha atenção se voltou totalmente aos sons, algo prazeroso. Porém da próxima vez que fizer esse tipo de atividade, farei com um gravador.
por Guilherme Doria dos Santos Maia