Relato da experiência de cartografar: a escuta da Rua Morumbi, em Cachoeira, Bahia
Meu nome é Gabrielle Galisa e faço parte da equipe Morumbi, junto com Amanda, Laura e Miles. Neste relato, compartilho minha experiência durante a atividade de cartografia sonora realizada na Rua Morumbi, em Cachoeira, Bahia.
Eu, Gabrielle, Amanda e Miles fomos à Rua Morumbi por volta das 11h30, com o objetivo de realizar a captação dos sons presentes naquele espaço, para captar os sons da manhã e da tarde, enquanto Laura ficou de captar os sons noturnos. Antes de chegarmos ao bairro, consultamos o GPS para observar a extensão da região e decidir por quais ruas passaríamos. Optamos por começar pela rua principal, nas proximidades do cemitério, e seguir até onde a movimentação permitisse. Saímos para essa experiência com a intenção de registrar os sons, mas, ao longo do percurso, percebi que cartografar também exigia observar, prestar atenção aos detalhes e reconhecer sons que, muitas vezes, passam despercebidos no cotidiano.
O sol estava quente, e o calor foi uma dificuldade para todos nós. A subida da rua, no entanto, foi um desafio maior para Amanda e Miles, enquanto eu achei o percurso tranquilo. Enquanto caminhávamos, observei o movimento dos clientes nas lojas, as casas em construção e as pessoas circulando. A rua estava bastante movimentada, principalmente no início do percurso. Ao chegarmos próximo ao cemitério, percebemos os sons de uma escola, com os alunos conversando entre si e a professora dialogando com eles. Sugeri que fizéssemos uma gravação daquele ambiente. Enquanto gravamos debaixo da janela, passou um homem empurrando um carro de mão, que produzia um som bastante agudo. Na hora, pensei: “Ih, vai estourar!”. E foi justamente o que aconteceu. Acabei descartando essa gravação, percebendo que captar um som não significa necessariamente conseguir registrá-lo da maneira que desejamos.
Continuamos subindo e, durante o percurso, uma senhora nos chamou para perguntar quem estávamos procurando. Expliquei que não procurávamos ninguém, mas que estávamos realizando um trabalho da faculdade sobre a captação de sons em Cachoeira. Essa interação me fez perceber que nossa presença também chamava a atenção de quem vivia naquele espaço. Enquanto conversávamos, notei que havia uma casa vizinha de onde vinha o som de um rádio. Passei em frente à residência e comecei a gravar, chamando Amanda e Miles para fazerem o mesmo, pois depois poderíamos comparar os áudios e escolher aquele que tivesse ficado melhor.
Mais adiante, chegamos ao cemitério, onde encontrei um ambiente muito mais tranquilo. Ali, os sons do vento, das folhagens e dos pássaros se destacavam. Foi interessante perceber como a paisagem sonora mudava em poucos metros: saímos de um espaço marcado pelas conversas e pela movimentação para outro em que os sons da natureza pareciam ocupar quase todo o ambiente. Continuando a subida, encontramos o que acredito ser uma oficina, onde alguns trabalhadores manuseavam ferramentas. Quando comecei a gravar, eles pararam de trabalhar e começaram a conversar, coincidentemente, sobre sons. Um deles chegou a reproduzir um som de estouro, mas decidi não utilizar essa gravação.
À medida que avançava, a região começou a me parecer familiar. Em uma das casas, ouvi um desenho animado, com uma programação infantil, e tentei registrar o áudio. Em seguida, um entregador desceu do carro com uma caixa, enquanto o veículo emitia um som bastante imponente. Também resolvemos gravá-lo. Como Amanda e Miles já estavam cansadas, continuei subindo um pouco mais sozinha. Passei por um bar, vi pessoas descendo a rua e estudantes indo para a escola. Em outra casa, havia um passarinho em uma gaiola. Tentei perceber se ele emitia algum som que pudesse registrar, mas não obtive êxito. Foi então que ouvi um ruído baixo e contínuo. Continuei caminhando até identificar sua origem: o som vinha do hidrômetro, responsável pela medição do consumo de água. Essa foi uma das situações que mais me chamou a atenção, porque precisei seguir o som até descobrir de onde ele vinha.
Na volta, aproveitei para fotografar a rua e observei duas mães acompanhadas de crianças, carregando pastas e toalhas. Pelo diálogo, imaginei que estivessem voltando do posto de saúde. Encerramos a atividade por volta das 13h. Apesar da presença de estudantes, trabalhadores, moradores e motocicletas, percebi que a Rua Morumbi era bastante tranquila quando comparada às ruas principais do centro de Cachoeira.
A experiência me fez compreender que cartografar os sons é também construir uma relação com o espaço e com as pessoas que o habitam. Durante o percurso, enfrentamos algumas dificuldades com o calor e com as gravações, principalmente quando os ruídos estouraram ou quando não conseguimos identificar de imediato a origem de determinado som. Ao mesmo tempo, percebi que escutar exige tempo e atenção, pois nem sempre aquilo que chama nossa atenção inicialmente é o que mais revela sobre o lugar. O que parecia apenas uma rua se revelou um conjunto de pequenas cenas cotidianas, cada uma com sua própria sonoridade. Ao final, percebi que não estava apenas gravando barulhos, mas aprendendo a ouvir a rua, reconhecer seus ritmos e compreender como os sons ajudam a contar a história de um lugar.
por Gabrielle Galisa Alves