Fernando Enzo dos Santos Barros

Minha experiência com a captação de som foi enriquecedora e divertida. Estive no grupo que gravou sons dos bairros do Caquende e da Faceira, e me reuni com minha colega Maria Fernanda no dia 21 de outubro para realizar a tarefa. No caminho do Caquende, o primeiro bairro em que fomos, interagimos com o ambiente e com a população (em especial para perguntar onde fica o Caquende – paramos quando nos responderam que já estávamos lá). Lá no bairro, paramos para ver – e, principalmente, escutar – os arredores, pensando naquilo que poderia ser usado para a gravação, mas também em ampliar a relação com o espaço. Primeiro, fomos recebidos por um silêncio desconfortável, que logo foi dando espaço para canções que entoavam de bares e carros. Próximo à pequena praça localizada logo no início do bairro, notamos o fluxo de um riacho soando baixo, tímido.

Enquanto Fernanda se ocupava de gravar os sons que vinham de um bar (sons esses que acabaram por não entrar na seleção de áudios escolhidos por nós), me atentei ao riacho. Terminada a gravação dela (pois compartilhamos do mesmo celular na feitura do trabalho), iniciei a captação dos sons do riacho. Entretanto, da posição em que estávamos, na praça, tais sons só se expressavam para os ouvidos mais atentos (e, certamente, não para um gravador básico de celular). Sendo assim, fomos adentrando a rua Manoel Santana Melo para encontrar um ponto em que o som emitido fosse mais alto, e achamos. De lá, também era possível enxergar melhor o fluxo, e, por alguns instantes, a harmonia entre dois dos
meus cinco sentidos se provou clara como nunca antes. Via e ouvia o que aquela paisagem tinha para me oferecer. Foi, para mim, a parte mais bonita de nossa caminhada. No continuar da jornada, gravei Fernanda caminhando pela mesma rua em que o riacho fica, mas dessa vez voltando. No documento, é possível escutar também vozes de cidadãos do bairro, que vão ficando cada vez mais altas conforme nos aproximamos. A partir desse momento, percebemos que, apesar de estarmos ali para gravar sons do bairro, também éramos agentes na produção destes sons. Depois dessa descoberta, passamos a capturar
documentos de som produzidos também a partir de sons “manufaturados” por nós. Logo na sequência do documento sonoro dos passos, gravamos o som de correntes de ferro que ficam numa outra praça do bairro (a “Praça do Caquende”) balançando – som produzido por nós. A gravação desse documento, em especial, foi divertida e engraçada, pois passamos pouco mais de um minuto pensando em diferentes formas de balançá-los e fazê-los interagir entre si. Em um momento, um dos moradores chegou a perguntar se estávamos precisando de ajuda. Explicada a situação, riu (nós também). Seguimos caminhando.

Já próximos à Faceira, seguimos gravando algumas coisas, como conversas num quiosque e etc, mas acabamos por não selecionar esses áudios. Na Faceira, capturamos sons de uma família conversando na porta de casa, o interior de uma casa sendo reformado, carros e motos, fricção entre bandeiras, galhos sendo pisados e aparelhos da academia ao ar livre sendo utilizados (alguns destes no mesmo aúdio; outros, não). A experiência foi ótima, pois permitiu o reconhecimento de todos os corpos presentes ali (vivos ou não) como produtores do espaço. Além disso, me fez pensar em como é a dialética entre os seres e as coisas (ou entre os seres e outros seres) que molda a realidade que conhecemos. Essas interações possuem cargas que formam o planeta: sejam as palavras, carregadas de significados, ou mesmo uma vassoura que espanta a poeira para fora de uma casa com auxílio de uma mão, a vida está nisso. Um exercício de escuta mais atento como esse oferece uma nova cosmovisão de mundo, como se mais uma dimensão fosse descoberta. Tenho estado mais atento a tudo.

por Fernando Enzo dos Santos Barros