Bárbara Silva Quirino

Os cenários que encontrei para a atividade da cartografia sonora muito divergiram
entre si. Mediante a apresentação de outros trabalhos, busquei uma prioridade: espaços ou
situações atípicas. Para a primeira parte da tarefa, optei por um local que habito quase
cotidianamente, a orla de São Félix, porém em um horário anômalo para mim: as primeiras
horas da manhã. Para a outra parte do exercício, atravessei a ponte e o relógio,
documentando a catarse coletiva em Cachoeira que foi a festa da reeleição do Lula.
Durante a pré-produção escolhi o equipamento porém me atentei apenas ao
acessório externo sem antes pensar no armazenamento da captação. Portanto tive de
encontrar um outro meio para fazer a atividade. Como já havia experimentado com os
áudios gravados através da minha câmera (Canon EOS Rebel SL2) e sabia de seu potencial
para captação de ambiência, optei por ela no lugar de meu celular, cujo gravador privilegia
vozes a qualquer outro ruído. Com ela em mãos saí para a rua.
Como não pude controlar as variáveis presentes na captação, tentei obter um
resultado com menor oscilação entre intensidades de som, me distanciando de barulhos que
tendem a saturar o arquivo (trânsito na ponte, conversas, etc) durante o momento de escuta
assim como foquei o trabalho na seleção dos áudios gravados, privilegiando aquele com
maior distinção entre e diversidade de ruídos.
São Félix acorda cedo. Às 5:30 da manhã já é possível ouvir os passos de uma
rotina de exercícios matinais, sobretudo da terceira idade, assim como suas conversas
fiadas, porém, o som de maior destaque ainda é o dos veículos que maltratam os velhos
metais da Ponte Dom Pedro II. Adentrando a grama próxima ao rio, os aspectos urbanos da
cidade se misturam com os da fauna. Em meio ao verde, fiquei de cócoras no verde
molhado, fechei os olhos e respirei. Durante um breve momento, só ouvi um som: o canto
dos pássaros. Dessa forma, escolhi o foco do meu primeiro áudio. Essa caminhada sonora
especificamente foi meditativa para mim. Nela, senti que pude me distanciar do cansaço
pela noite mal dormida de ansiedade política e calor extremo.
Em Cachoeira, na noite seguinte, captei a euforia de uma multidão unida por um
motivo: a vitória coletiva. Mediante a tal cenário, encontrei dificuldade na realização do
exercício pois, além da dificuldade de permanecer em silêncio mediante a comemoração, os
sons que encontrei eram diversificados entre si e altamente saturados, quase
impossibilitando a sua distinção. Assim sendo, gravei diversos áudios e posteriormente
selecionei o que mais me chamou a atenção pela sua variedade e qualidade narrativa.
Escolhi um dos últimos que gravei, retratando o início do fim da festa.

por Bárbara Silva Quirino