Isabel Sales

27/10/2026

Na realidade esse relatório começa no dia 16, quando acordei e não abri os
olhos pois estava cansada demais para acordar de fato, e antes mesmo que eu pudesse
raciocinar qualquer outra coisa, involuntariamente eu já estava escutando o mundo a
fora, que já estava acordado. Quando soube que o trabalho que havia sido passado
seria esse registro, fiquei muito empolgada inicialmente pelo fato de que teríamos
áudios guardados de ambientação caso fosse necessário para alguma produção nossa.
A minha primeira gravação foi pela tarde, e quando comecei a gravar, primeiro
tentei perceber em que ponto da rua eu conseguia escutar os sons de maneira que
parecessem muitos (mesmo sabendo que não era necessário). Depois que uns
segundos tinham passado, passei a identificar cada som e suas camadas, tentando
localizar de onde vinha e qual o contexto. Na parte da manhã fiz a mesma coisa, mas
foram experiências diferentes, principalmente após pegar os áudios e compará-los.
Pela tarde, eu tinha apenas guardado na memória que tudo ao redor estava mais
calmo, mas foi contraditório quando escutei e percebi maior agitação na gravação. E
pela manhã, foi justamente o contrário, guardei na memória que pela manhã a rua
estava mais agitada mas no áudio quase não tinha muitos sons. Mas por quê?
A verdade é que também prestei bastante atenção visualmente, a maneira e
velocidade que as pessoas andavam, se muitas andavam, enfim. Pela manhã, embora
tivessem poucos sons, tinha muita coisa acontecendo visualmente. E fiquei pensando
em como podemos brincar e cruzar esses dois campos no audiovisual.
A partir disso, fui curiar o trabalho dos outros e minha mente (muito fétil)
começou a imaginar os cenários e visuais do ambiente da gravação. Quais seres vivos
estão ali? Quais elementos estão presentes? E só depois iria ver os registros e ver se
pelo menos havia acertado sobre algo que aparecesse nas fotos.
Fiquei pensando no quanto o som pode não apenas guiar uma “imagem” mas
também complementar, no como relacionamos o som das coisas, e imaginamos
situações a partir daquilo que escutamos. E que podemos usar isso a nosso favor no
audiovisual, explorando as possibilidades que o som oferece para construir ambientes,
despertar sensações e até mesmo induzir o espectador a imaginar algo que não está
vendo. E, no audiovisual, essa relação entre som e imagem abre espaço para inúmeras
possibilidades criativas, seja para reforçar aquilo que vemos, seja para nos fazer
imaginar aquilo que permanece fora do nosso campo de visão.

por Isabel Sales