Foi uma experiência extremamente interessante
sair por Cachoeira com um olhar tão específico
quanto o auditivo. Prestar atenção no movimento
das coisas, e no som que essa movimentação faz,
ou pensar em quais barulhos ambientes poderiam
ser úteis para uma possível biblioteca sonora,
pensando no que poderia ser usado em curtas
autorais e quais deles poderiam substituir outros
sons impossíveis de reproduzir de forma literal no
determinado contexto, como o de uma bala sendo
disparada, que pode ser reproduzido através do
som de um estralo em algo plástico.
Treinar a audição para fazer esse tipo de
reconhecimento ao sair na rua foi uma parte
marcante do processo, pois me fez desenvolver um
interesse por praticar essa atividade sem fins
curriculares uma vez que a ideia facilmente se
expande para além de uma atividade pontuada.
Durante a execução do projeto, no qual trabalhei
com um amigo, nos vimos diversas vezes
“forçando” certos barulhos, nos aproveitando de
objetos que víamos na rua e julgavamos serem
capazes de produzir um som interessante, como o
tecidos das bandeiras políticas presas à carros, que
chegamos à roçar uma com a outra, ou o barulho
das correntes em volta de um coreto, que batemos
um contra o outro, resultando em uma sonografia
idêntica a de sinos tocando.
Também chegamos a conhecer diversas pessoas
durante a caminhada, como o dono de um carro
tocando música alta, que foi nosso primeiro áudio a
ser gravado. Ele puxou conversa sobre a banda e
acabamos conversando por um tempo antes de
seguir nosso caminho. Isso chegou a acontecer
mais algumas vezes durante o trajeto, em
momentos nos quais pedíamos direcionamento
para chegar na Faceira ou permissão para o uso do
som e das imagens dos donos de certos objetos.
Ou até em momentos nos quais nos perguntaram o
que estávamos fazendo e explicamos o projeto. Foi
uma forma interessante de entrar em contato com a
cidade, conhecer ela por outras camadas visto que
fomos a um bairro, até então, inexplorado.
Por fim, foi uma experiência que me trouxe mais
maturidade ao lidar com a execução de trabalhos
facultativos em andantes urbanos, contribuiu para
um aprendizado ao gravar e focar nos sons
enquanto fora de um ambiente no qual eles podem
ser “controlados” e me permitiu exercer certa
criatividade ao escolher a sonografia e como ela
poderia ser executada da forma que pensei com os
“equipamentos” que tinha em mãos (que eram
praticamente nulos).
por MARIA FERNANDA OLIVEIRA BLANCO VIDAL